PHDA: Da História à Ciência, Rostos e o Futuro do Diagnóstico

O dia 13 de julho é o Dia Internacional da Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), uma condição de neurodesenvolvimento tão falada atualmente, que há quem diga que é subdiagnosticada e outros que é sobrediagnosticada. Certo é que é muito mais do que um rótulo clínico; é uma forma diferente de o cérebro processar o mundo.

Abaixo, apresenta-se uma perspetiva integrada e harmonizada sobre a PHDA: o que realmente é, como evoluiu em Portugal e no mundo, quem lhe dá rosto e para onde caminha a ciência no futuro da sua nomenclatura.

A PHDA Através do Tempo

O PHDA foi descrito pela primeira vez em 1902 pelo pediatra Sir George Still. No entanto, a neurodiversidade sempre existiu. É fascinante pensar que o PHDA foi formalmente reconhecido há 124 anos. O facto de o PHDA ter sido formalmente reconhecido há 124 anos lembra-nos que a PHDA não é uma invenção moderna, mas sim uma parte integrante da experiência humana ao longo da história. O reconhecimento clínico foi apenas um passo para a compreensão e apoio, mas a essência do transtorno sempre esteve presente.

Em Portugal, a história do diagnóstico da PHDA seguiu o ritmo da evolução científica internacional, mas com algumas particularidades nacionais:

  • Anos 1970/1980 (O Início): Foi nesta época que o conceito de "hiperatividade" começou a dar os primeiros passos na medicina e na psicologia em Portugal. Inicialmente, o diagnóstico era muito focado na agitação motora extrema das crianças, sendo comum falar-se em "disfunção cerebral mínima" ou, mais tarde, em "reação hipercinética da infância". Em meados da década de 80 (com artigos científicos marcantes em 1986), a terminologia começou a consolidar-se e surgiram as primeiras "consultas de hiperatividade" em hospitais portugueses.

  • Anos 1990 (A Consolidação Clínica): O diagnóstico em Portugal estruturou-se verdadeiramente a partir da década de 1990, impulsionado pela publicação do manual diagnóstico americano DSM-IV (em 1994), que estabeleceu os critérios modernos que dividem a perturbação em desatenção, hiperatividade e impulsividade. Foi também nesta década que começaram a introduzir-se os primeiros tratamentos farmacológicos (psicoestimulantes) em território nacional.

  • Anos 2000 (Adoção do termo PHDA): Ao contrário do Brasil (que adotou a sigla TDAH), Portugal optou oficialmente pela sigla PHDA, invertendo a ordem dos termos para colocar a "Hiperatividade" em primeiro lugar.

O "Vazio" nos Adultos

Como o foco do diagnóstico clínico em Portugal durante os anos 80 e 90 estava quase exclusivamente direcionado para crianças em idade escolar (muitas vezes sinalizadas pelas escolas), várias gerações de adultos portugueses ficaram sem qualquer tipo de diagnóstico.

É por isso que, hoje em dia, assistimos a um aumento expressivo de adultos em Portugal a serem diagnosticados pela primeira vez — muitos deles com 30, 40 ou 50 anos —, que passaram a vida inteira sem compreender a origem das suas dificuldades de foco e organização.

Mas afinal o que é a PHDA?

A PHDA é uma condição neurobiológica que afeta o desenvolvimento e a regulação da atenção, da atividade e da impulsividade. Manifesta-se de forma diferente em cada pessoa e ao longo da vida, não se limitando à infância.

  • Défice de Atenção: Dificuldade em manter o foco, seguir instruções complexas, organizar tarefas e uma tendência acentuada para a distração.

  • Hiperatividade: Necessidade excessiva de movimento, inquietação e agitação motora.

  • Impulsividade: Dificuldade em controlar os impulsos, responder precipitadamente e esperar pela vez.

Várias figuras públicas portuguesas reais e muito conhecidas falaram abertamente sobre o seu diagnóstico de PHDA ou apoiam ativamente a causa, ajudando a quebrar o estigma e a dar visibilidade a esta condição (especialmente nos adultos). Alguns dos exemplos mais marcantes em Portugal incluem:

  • Sara Sampaio (Supermodelo e Atriz): A mundialmente famosa modelo e atriz portuguesa revelou publicamente o seu diagnóstico de PHDA (predominantemente do tipo desatento). Partilhou que o diagnóstico a ajudou a compreender-se melhor e a perceber que a sua tendência para procrastinar e acumular trabalho não era "preguiça", mas sim a forma como o seu cérebro funciona.

  • Marisa Liz (Cantora): A conhecida cantora (ex-vocalista dos Amor Electro e mentora do programa The Voice Portugal) falou abertamente sobre o seu diagnóstico de défice de atenção na idade adulta. Explicou como isso se reflete no seu processo criativo, na sua enorme energia e também nas dificuldades diárias de organização e foco que sempre sentiu ao longo da vida.

  • Zé Manel (Vocalista dos Fingertips): O cantor Zé Manel partilhou publicamente o seu diagnóstico de PHDA e autismo. O músico descreveu o diagnóstico como um momento de grande emoção e alívio, explicando que sempre se sentiu diferente ao longo do seu percurso e que saber isto o ajudou a sentir-se menos sozinho.

  • Daniela Ruah (Atriz): Embora não tenha partilhado um diagnóstico pessoal, a conhecida atriz de NCIS: Los Angeles tem um papel muito ativo na sensibilização para esta causa em Portugal, tendo sido madrinha de iniciativas de apoio à PHDA (como o "Clube PHDA").

No panorama internacional, existem muitas figuras de enorme relevo mundial que falaram abertamente sobre o seu diagnóstico de PHDA (conhecido internacionalmente como ADHD). Duas das mais reconhecidas e inspiradoras são:

  • Michael Phelps (O atleta olímpico mais medalhado da história): Michael Phelps foi diagnosticado com PHDA ainda em criança, aos 9 anos. A sua mãe partilhou frequentemente como a natação e a piscina ajudaram a canalizar a sua hiperatividade e imensa energia, permitindo-lhe focar-se de forma extraordinária. Tornou-se um dos maiores atletas de todos os tempos e um defensor muito ativo da saúde mental e da desmistificação da PHDA.

  • Simone Biles (A ginasta mais condecorada de sempre): A ginasta norte-americana revelou publicamente o seu diagnóstico de PHDA em 2016. Simone partilhou que toma medicação desde criança para a condição e que o facto de ter PHDA não é algo de que se deva ter vergonha ou receio de partilhar com o mundo. A sua divisão ajudou a normalizar o diagnóstico e o tratamento entre atletas de alta competição e jovens em geral.

Estes testemunhos reais mostram que a PHDA afeta pessoas altamente bem-sucedidas, criativas e talentosas, provando que o diagnóstico na idade adulta é um passo libertador para o autoconhecimento.

O FUTURO DA PHDA

1. O Grande Equívoco: Não é "Défice", é Desregulação

O termo "Défice de Atenção" dá a entender que a pessoa não tem atenção para dar. Na realidade, quem tem PHDA tem atenção a mais — o cérebro capta tudo ao mesmo tempo (o som do ar condicionado, uma mosca a passar, os próprios pensamentos, a conversa ao lado) e tem uma enorme dificuldade em filtrar e selecionar onde colocar essa atenção.

  • O Problema da Regulação (O "Filtro" Avariado): A PHDA é, no fundo, uma disfunção das funções executivas do cérebro (geridas pelo córtex pré-frontal). O cérebro tem dificuldade em regular a energia, o foco e as emoções.

  • O Fenómeno do Hiperfoco: A maior prova de que não há falta de atenção é o hiperfoco. Quando uma pessoa com PHDA faz algo que adora ou que estimula os seus níveis de dopamina (jogar videojogos, criar arte, programar, investigar um tema de interesse), consegue focar-se de forma tão intensa e obsessiva durante horas que se esquece de comer ou de ir à casa de banho. Isto não é falta de atenção; é uma atenção desregulada (ou tudo, ou nada).

2. Desafios nos Critérios de Diagnóstico Atuais

Os critérios oficiais utilizados para diagnosticar (como o manual DSM-5) ainda são muito criticados por vários motivos:

  • Foco Infantil e Comportamental: Os critérios foram desenhados com base no comportamento de rapazes crianças em contexto escolar (ex: "corre de um lado para o outro", "não consegue estar sentado na cadeira"). Nos adultos, a hiperatividade física transforma-se frequentemente em inquietude mental (pensamentos acelerados, ansiedade), algo que os critérios tradicionais falham em captar de forma clara.

  • A "Invisibilidade" nas Mulheres: As mulheres e raparigas tendem a apresentar mais o tipo predominantemente desatento. Em vez de perturbarem as aulas, são vistas como "distraídas", "sonhadoras" ou apenas "muito sensíveis". Por isso, passam frequentemente debaixo do radar e só são diagnosticadas em adultas, muitas vezes após anos de diagnósticos errados de depressão ou ansiedade.

  • Falta de Marcadores Biológicos: Não existe uma análise ao sangue ou uma ressonância magnética que diga "sim, tem PHDA". O diagnóstico é puramente clínico, baseado em questionários, entrevistas e na história de vida da pessoa. Isto torna o processo dependente da sensibilidade e da atualização científica do médico ou psicólogo.

3. A PHDA como uma Disfunção da "Química da Motivação"

Para além da atenção, a desregulação afeta profundamente a dopamina (o neurotransmissor da recompensa e da motivação).

Num cérebro neurotípico, fazer uma tarefa aborrecida mas necessária (como arrumar o quarto ou preencher impostos) liberta dopamina suficiente para que a pessoa consiga iniciar e terminar a tarefa. Num cérebro com PHDA, essa libertação de dopamina não acontece. Isto faz com que tarefas simples pareçam montanhas impossíveis de escalar (paralisia por PHDA). A pessoa precisa de um estímulo extremo (como a adrenalina de um prazo limite que termina em poucas horas) para conseguir ativar o cérebro e agir.

Em suma: A PHDA não devia ser descrita como "não querer prestar atenção", mas sim como um cérebro com um motor potente, mas com um sistema de travões e de direção que às vezes se recusa a responder aos comandos.

O Futuro da Nomenclatura Científica

À medida que a neurociência avança, a comunidade científica debate ativamente a alteração do nome "PHDA", considerado obsoleto e cientificamente impreciso. O futuro do diagnóstico aponta para nomenclaturas que reflitam a biologia real da condição:

  • VAST (Variable Attention Stimulus Trait / Traço de Estímulo de Atenção Variável): Proposto por especialistas para retirar a PHDA do campo estrito da "doença" e defini-la como um traço de funcionamento cognitivo onde a atenção é altamente variável (podendo ser excecional no hiperfoco).

  • Disfunção/Desregulação das Funções Executivas (EFDD): Foca o diagnóstico no verdadeiro problema de fundo: a gestão do tempo, o planeamento, o controlo de impulsos e a regulação emocional geridos pelo córtex pré-frontal.

  • Perturbação de Défice de Intenção: Sugerido por investigadores como o Dr. Russell Barkley, uma vez que o indivíduo sabe o que tem de fazer, mas o cérebro falha na execução prática e temporal dessa intenção.

Uma Mensagem de Força

"Ter PHDA não é ter um motor avariado. É conduzir uma máquina de corrida de alta cilindrada com travões temperamentais: o desafio não é abrandar o teu motor potente, mas sim aprenderes a pilotar a tua própria velocidade para conquistares a pista que tu escolheres."






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