Há algo de Errado Comigo... ou Toda a Gente Funciona Assim? Humanizar a Neurodivergência.

Noutra Frequência | Capítulo 1 - Farinha Integral, Uvas Passas e Disfunção Executiva

Acordei sobressaltada — como às vezes acontece, naquele misto de ansiedade e inquietação — e pensei: "Vou fazer um bolo saudável!". Levantei-me e, após os passos iniciais da rotina (esquecendo-me, claro, de colocar o sérum antes do creme, nessa minha eterna dificuldade em sequenciar passos automáticos), lá fui para a cozinha.

Penso: "Tenho uvas-passas a passar do prazo, podem ser uma boa opção para adoçar...". Pesquiso uma receita com a IA. Encontro uma, leio, parece-me bem. Começo a colocar os ingredientes na bancada e surge outro pensamento: "Eu adoro pão de uvas-passas!". De repente, ali estou eu — com os ingredientes do bolo espalhados — de telemóvel na mão a pesquisar receitas de pão. O meu foco, que salta rapidamente de estímulo em estímulo, já mudou de rota. Encontro a receita. Mas, logo a seguir, a memória traz-me o registo de que já hidratei tâmaras no passado e que o bolo ficou ótimo.

Decido-me: vou começar a receita de bolo de maçã, canela e uvas-passas. A meio, coloco as passas do pão a hidratar, começo a descascar as maçãs e, faltando apenas uma, paro tudo. A minha mente exige abrir uma nova tarefa antes de fechar a anterior: pôr água a ferver para a outra hidratação. Aproveito a água a ferver, deito-a numa chávena e preparo o meu chá verde — a regra da manhã, em jejum.

O bolo está quase pronto. Paro tudo para ligar o forno. Olho em volta e percebo a quantidade de loiça na bancada — e o impacto é imediato. Aquela desarrumação não é só ruído visual, é uma sobrecarga sensorial que satura o meu cérebro e paralisa a minha capacidade de agir. Começo a lavar algumas peças, mas a máquina ainda tem a loiça lavada lá dentro. Puxa! Não consigo avançar se o espaço à minha volta estiver um caos; a desorganização externa transforma-se instantaneamente em ansiedade cá dentro. Mas... respira. Decido ignorar a máquina por momentos para não bloquear totalmente. Termino o bolo e coloco-o no forno.

Vou arrumar a cozinha e, numa manifestação clássica da minha cegueira temporal, percebo que me esqueci por completo de ligar o temporizador para os 35 minutos de cozedura. O tempo para mim não flui de forma linear. Calculo a olho, ligo o cronómetro e volto à atividade. Vou recolher a roupa do estendal e começo a fazer o pão. Entre as tarefas do pão, sempre que vou ao armário buscar as farinhas (onde a minha criatividade e pensamento lateral me levam a misturar trigo normal e integral, meio-meio), vou arrumando um prato ou um copo, compensando o caos com uma capacidade única de desdobramento.

Passado algum tempo, tenho o bolo pronto (que cheirinho!), a cozinha impecável e uma mente que acabou de sair de um hiperfoco absoluto: passei os últimos 45 minutos completamente absorvida a pesquisar a ciência por trás da hidratação de uvas-passas e tâmaras, esquecendo o mundo ao redor porque um detalhe me despertou uma curiosidade irresistível.

Início da manhã feito. Estou feliz, mas pergunto-me: porque é que eu sou assim? Hoje percebo que estas paragens no planeamento, as tarefas deixadas a meio, a urgência de organizar o espaço para acalmar a mente, os esquecimentos e a fixação intensa nos detalhes não são falhas. São as engrenagens de um cérebro que funciona noutra frequência. Um funcionamento que traz desafios na gestão do dia a dia, mas que também me entrega uma sensibilidade única, capacidade de adaptação e uma mente profundamente multifuncional e criativa.

Se olharmos de perto para esta manhã, cada tropeço e cada vitória têm um nome no mapa do neurodesenvolvimento:

·       Disfunção Executiva: É a grande maestrina deste caos. Manifesta-se na dificuldade em planear, sequenciar e priorizar tarefas simples. É o que faz com que o impulso de fazer um bolo se fragmente em cinco direções diferentes antes sequer de a massa estar pronta.

·      Hiperfoco: Aquela paragem de 45 minutos para investigar a fundo a hidratação de passas e tâmaras? É a capacidade da mente neurodivergente de se absorver completamente num tema de interesse, ignorando a noção do tempo e o que está ao redor.

·      Cegueira Temporal (Time Blindness): O esquecimento crónico do temporizador do forno reflete a dificuldade biológica em perceber e gerir a passagem do tempo de forma linear.

·      Sobrecarga Sensorial e Bloqueio Cognitivo: A loiça acumulada na bancada e a máquina cheia não são apenas desarrumação; funcionam como "ruído visual". Para este cérebro, o excesso de estímulos externos satura a capacidade de processamento, gerando ansiedade e paralisando a ação (o chamado freeze).

·       Atenção Alternada (e não Défice): O cérebro não tem falta de atenção; tem, na verdade, uma atenção que salta rapidamente de estímulo em estímulo — a rotina de pele, o pão, o chá, a roupa no estendal.

·      Compensação e Pensamento Lateral: Apesar das rasteiras do planeamento, a mente compensa através da criatividade (a mistura de farinhas) e de uma capacidade única de "multidirecionalidade", conseguindo fechar a manhã com o bolo feito e a cozinha limpa. É o esgotamento e a genialidade a funcionarem em simultâneo.

Se chegaste até aqui e sentiste um eco familiar no peito, deixa-me fazer-te um convite. Este texto não é um desabafo isolado; é o primeiro capítulo de uma viagem partilhada. Ele nasce do cruzamento da minha própria experiência de vida com o colorido da neurodivergência que escuto e guio no meu trabalho psicoterapêutico.

Decidi abrir as portas da minha vida e mente e cruzar estas vivências para mapear o nosso quotidiano através de uma coleção de crónicas. O objetivo? Humanizar, desmistificar e normalizar o dia a dia de quem funciona nesta rotação. Quero descer os conceitos dos manuais clínicos para a terra — para a loiça suja da cozinha, para a secretária de trabalho e para as conversas de café.

Nos próximos textos, vamos sintonizar juntos Noutra Frequência através de diferentes estações da vida, traduzindo as características da neurodivergência em histórias reais.

No texto de hoje, "despimos" a Disfunção Executiva, o Hiperfoco e a Cegueira Temporal entre bolos e pães. Nos capítulos seguintes, iremos explorar o cabo de guerra entre a procrastinação paralisante e a genialidade criativa do último minuto, a jornada pela hipersensibilidade social, a "ressaca" pós-interação e a empatia profunda que às vezes transborda.

Se funcionas nesta frequência, ou se amas alguém que vive nela, fica por aí. O próximo capítulo já está a levedar.

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