A Ilusão do Controlo: Só Comandas ~ 20% da Tua Mente?

A Verdadeira Neurociência por detrás do Mito

De certeza que já ouviste a famosa frase: "Usamos apenas 10% do nosso cérebro". Durante décadas, venderam-nos esta ideia. Tenho uma boa e uma má notícia para ti.

  • A boa notícia: A neurociência moderna já provou que isto é um mito absoluto. NÓS USAMOS 100% DO NOSSO CÉREBRO AO LONGO DO DIA, MESMO QUANDO ESTAMOS A DORMIR.

  • A má notícia: Embora uses o teu cérebro na totalidade, a verdade científica é que TU SÓ CONTROLAS ATIVAMENTE menos de 20% do total dos teus pensamentos.

Como assim? Boa pergunta.

Se sentes que a tua mente divaga constantemente, que queres focar-te, mas acabas a pensar no jantar, em preocupações futuras ou em padrões de comportamento antigos, teus ou dos outros em relação a ti, não estás sozinho. Estás apenas a experienciar os processos internos das redes neuronais do teu cérebro e a força dos teus esquemas mentais.

Para criar uma linguagem simples e que ancore a tua atenção, vou explicar estes processos e fluxos de pensamento — mais ou menos conscientes, intencionais ou automáticos — com uma metáfora: 


O Teu Cérebro é uma Televisão com Três Canais.

Para percebermos como a nossa atenção funciona, a neurociência cognitiva aponta para a interação de três redes neuronais principais de grande escala (large-scale brain networks). Pensa nelas como três canais de televisão que disputam a tua audiência ao longo do dia:

1. O Canal do Foco: Central Executive Network (CEN) — Menos de 20% de Audiência

Este é o canal que tu ligas quando precisas de resolver um problema complexo, tomar uma decisão racional ou focar-te numa tarefa deliberada — ou seja, quando te propões a pensar em algo de forma consciente. É o que eu costumo caracterizar como o pensamento intencional. Trata-se da Rede Executiva Central (CEN) — o teu foco consciente.

O problema: Esta rede consome imensa energia metabólica. O cérebro detesta gastar energia desnecessariamente, pelo que manter esta rede ativa de forma contínua é exaustivo. É por isso que ela representa apenas uma pequena porção do teu dia.

2. O Canal do Piloto Automático: Default Mode Network (DMN) — Cerca de 50% de Audiência

Sabe aquele momento em que estás a tomar banho, a conduzir num trajeto habitual ou a olhar para o vazio e a tua mente começa a divagar? Esse é o "canal" da Rede de Modo Padrão (DMN). Os investigadores Matthew Killingsworth e Daniel Gilbert demonstraram num estudo icónico que, em média, 47% do nosso tempo de vigília é passado em divagação mental (mind-wandering). A DMN é o estado predefinido do cérebro para processamento autorreferencial (pensar sobre nós próprios, o passado e o futuro).

3. O Comando de Seleção: Salience Network (SN)

Como é que o cérebro decide qual rede deve estar ativa? Quem faz essa gestão é a Rede de Salência (SN), descrita detalhadamente pelo neurocientista Vinod Menon. Ela funciona como o comando da televisão, monitorizando constantemente estímulos internos e externos em segundo plano para decidir se deves continuar focado (CEN) ou se podes voltar ao piloto automático (DMN).

Onde a Neurociência se Cruza com a Psicologia Clínica

Portanto, embora seja um mito que apenas usamos 10% do nosso cérebro — já que utilizamos 100% dele —, a verdade científica é que apenas controlamos de forma intencional cerca de menos de 20% dos nossos pensamentos.

O fluxo do nosso dia divide-se nesta dinâmica de três redes: a Rede Executiva Central (CEN), o "Canal do Foco" intencional que consome muita energia e ocupa a menor parte do tempo; a Rede de Modo Padrão (DMN), o "Piloto Automático" responsável pela divagação mental que consome cerca de metade da nossa atividade; e a Rede de Salência (SN), o "Comando de Seleção" que gere a transição ao monitorizar os estímulos ao nosso redor.

Assim, a maior parte dos nossos pensamentos diários não são deliberadamente escolhidos por nós; resultam da nossa mente automática e da sua reação ao ambiente. O colorido destes padrões automáticos, por sua vez, é o resultado direto das redes ou esquemas de pensamento que já se cristalizaram na nossa mente ao longo da vida.

Vou explicar-te um pouco mais o que são estes esquemas de pensamento, pois são eles os grandes responsáveis por cerca de 47% dos pensamentos que notas invadirem a tua consciência no dia a dia. Ou que talvez nem notasses... visto que, muito possivelmente, consideravas que 100% dos teus pensamentos eram teus, produzidos intencionalmente por ti — e ainda te culpavas por isso. Estou enganada? Possivelmente não. Também houve um tempo em que fui como tu e me recriminei por estar sempre a pensar na mesma coisa, quando isso era só ruminar e nada acrescentava à minha vida.

Ora, esta dinâmica neurobiológica, embora não cientificamente comprovada, para mim encaixa perfeitamente na Terapia dos Esquemas, desenvolvida por Jeffrey Young. Young propôs que, devido a experiências de infância desfavoráveis, nós desenvolvemos Esquemas Mentais Maladaptativos Precoces — que são basicamente "lentes" rígidas através das quais vemos o mundo (como o esquema de AbandonoDesconfiança/Abuso ou Padrões Inflexíveis).

O Ponto de Encontro

Quando a tua mente entra em piloto automático — ou seja, quando a Rede de Modo Padrão (DMN) assume os comandos e a tua atenção consciente (CEN) se desliga —, são os teus Esquemas de Jeffrey Young que passam a rodar em segundo plano.

Sem controlo consciente, a DMN começa a projetar velhas narrativas: "Eu não sou capaz""Eles vão-me rejeitar""Tenho de ser perfeito".

A tua Rede de Salência (SN), influenciada por estes esquemas de dor, passa a detetar "ameaças" em todo o lado (um email mais frio do chefe, uma mensagem não respondida de um amigo), ativando reações emocionais automáticas de sobrevivência (luta, fuga ou congelamento).

Um Caso Prático: O Pedro e o Esquema de Fracasso

Para perceberes como isto se processa no teu dia a dia, imagina o Pedro. Ele carrega consigo o Esquema de Fracasso — a crença profunda de que é inerentemente menos capaz que os outros e que está destinado a falhar profissionalmente.

Vejamos o que acontece no cérebro do Pedro quando ele se senta para trabalhar num relatório importante:

  • Fase 1 (CEN ativa): O Pedro começa bem. Ele liga o seu "Canal do Foco" (Rede Executiva Central). Durante 15 minutos, escreve as primeiras páginas do relatório. Ele está focado, produtivo e no controlo consciente.

  • Fase 2 (DMN assume os comandos): O Pedro esbarra numa dúvida técnica e para um segundo para pensar, ou simplesmente decide fazer uma pausa de dois minutos para beber água. Nesse instante, a Rede Executiva Central desliga-se para poupar energia. A Rede de Modo Padrão (DMN) — o piloto automático — assume imediatamente o controlo.

  • Fase 3 (O Esquema corre em segundo plano): Numa mente sem este esquema, a divagação poderia ser neutra ("o que vou jantar hoje?"). Mas no cérebro do Pedro, a DMN acede instantaneamente ao seu esquema mais enraizado. Em segundos, o piloto automático começa a passar o pior programa possível: "Tu não vais conseguir acabar isto""O relatório do teu colega vai ser dez vezes melhor""Mais tarde ou mais cedo, vão perceber que és uma fraude".

  • Fase 4 (A SN gera o pânico): A Rede de Salência (SN) deteta estes pensamentos de autossabotagem e interpreta-os como uma ameaça real à sobrevivência do Pedro. O corpo dele reage: o coração acelera, o estômago aperta.

O resultado? Em vez de o Pedro voltar calmamente ao "Canal do Foco" (CEN) para continuar o relatório, a sua Rede de Salência bloqueia-o no estado de ansiedade. Para fugir daquele desconforto, o Pedro fecha o computador e vai para o telemóvel (procrastinação).

No final do dia, ele sente que falhou... alimentando e fortalecendo ainda mais o seu Esquema de Fracasso para o dia seguinte.

Quem é que já não viu ou viveu algo parecido? Se não em relação ao fracasso, em relação a outro padrão automático?

Como Recuperar o Comando dos Teus Pensamentos?

Não podemos desligar a nossa Rede de Modo Padrão, mas podemos treinar a nossa mente para não ser refém dela nem dos esquemas automáticos (e das nossas emoções, obviamente).

  • Desenvolve a Meta-Atenção: Ganha o hábito de observar os teus pensamentos. Quando deres por ti a ruminar, identifica o esquema ativo: "Olha, a minha DMN ligou-se e o meu esquema de Fracasso está a tentar controlar o canal".

  • Ativação Deliberada da CEN: Práticas de atenção plena (mindfulness) e reestruturação cognitiva ajudam a fortalecer as conexões da Rede Executiva Central, permitindo-te "mudar de canal" e responder com base no presente, e não em traumas do passado.

Compreender o teu cérebro é o primeiro passo para deixares de ser um espectador passivo da tua mente e passares a ter, verdadeiramente, o comando na mão.

Não ambiciones fazer isto na perfeição. Não vai acontecer. Se estás a aceder a esta informação pela primeira vez, pode ser difícil compreender ou aceitar esta perspetiva, mas desafio-te a isso. Aceitas um bom desafio? Costumo dizer que esta forma consciente de perceber a mente humana é radical — bem mais radical do que saltar de paraquedas! 😊

Se precisares de ajuda — e sim, é possível —, nomeadamente para conheceres quais são os teus esquemas cognitivos mais rígidos e as emoções que os acompanham, procura um(a) psicoterapeuta com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental ou Terapia dos Esquemas.

Se consideras a possibilidade de fazeres uma boa equipa comigo e aceitares o meu desafio, fala comigo!

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