O Perfil da Adição ao Trabalho: O que está por trás do Workaholic?
Com base nas evidências científicas do artigo dos investigadores Emrah Özsoy e Mark D. Griffiths (2026), a combinação de variáveis individuais específicas de personalidade e de um contexto organizacional focado na exigência constituem o cenário ideal para catalisar a adição ao trabalho.
Abaixo encontra-se o desenho de um perfil psicológico e contextual de alto risco para o desenvolvimento da adição ao trabalho (work addiction):
Perfil Clínico e Organizacional Potenciador da Adição ao Trabalho
1. Núcleo Psicológico (Predisposições Individuais)
Este é o motor interno da adição. A vulnerabilidade não reside na dedicação saudável, mas sim numa estrutura de personalidade assente em três pilares fundamentais revelados pelo estudo:
Altamente Consciencioso: O indivíduo exibe uma orientação extrema para a tarefa, planeamento e organização. Possui um sentido de dever e de responsabilidade hipertrofiado, com metas internas perfecionistas. O trabalho torna-se a atividade central da sua identidade, e a incapacidade de delegar ou de deixar tarefas inacabadas leva-o a estender as horas de trabalho de forma descontrolada.
Elevado Neuroticismo (Instabilidade Emocional): É o componente de fuga. Trata-se de uma pessoa com níveis elevados de ansiedade crónica, insegurança e baixa autoestima. Para este perfil, o trabalho funciona como um mecanismo de coping (enfrentamento) mal-adaptativo: enquanto está focado nas tarefas e em controlo absoluto da folha de cálculo ou do projeto, consegue anestesiar temporariamente a angústia, a culpa e o medo do fracasso. A ausência de trabalho gera uma crise de ansiedade.
Traços Narcisistas (Dark Triad): É o componente de validação do ego. O indivíduo possui uma necessidade profunda de admiração, estatuto, prestígio e aprovação externa. Vê o ambiente profissional como uma arena para provar a sua superioridade e indispensabilidade. A sobrecarga de trabalho e o sacrifício pessoal são internalizados e exibidos como troféus para alimentar a sua autoimagem de sucesso.
2. Contexto Organizacional (O Gatilho Social)
Embora as variáveis individuais sejam as mais robustas segundo o estudo, o ambiente atua como o validador definitivo deste padrão comportamental:
Modelagem por um Supervisor com Adição ao Trabalho: O colaborador direto responde a uma chefia que também exibe um padrão compulsivo (perda de controlo das horas, e-mails de madrugada, expectativas irrealistas de performance). Por aprendizagem social, o colaborador interpreta estes sinais comportamentais da liderança como a norma cultural da empresa: “Para ter sucesso ou manter-me seguro aqui, o comportamento esperado é a hiperdisponibilidade.”
Cultura de Normalização do Sacrifício: Um ambiente que valida a fusão entre a vida pessoal e profissional, onde o descanso é visto com desconfiança e o "trabalho sob pressão constante" é ativamente elogiado.
3. Dinâmica do Perfil em Ação (Sintomatologia)
Foco Cognitivo Obsessivo: Mesmo fora do horário laboral (em momentos familiares ou de lazer), o pensamento permanece rigidamente indexado a problemas e prazos do trabalho.
Dificuldade de Desconexão: Sentimentos intensos de stresse, inquietação e irritabilidade quando é forçado a afastar-se das suas funções (férias, fins de semana).
Deterioração Multidimensional: O investimento maciço de recursos no trabalho gera um declínio progressivo na saúde física (problemas metabólicos, privação de sono), nas relações interpessoais (conflitos familiares por ausência) e no bem-estar psicológico geral.
Nota de Análise: O maior perigo deste perfil é que, nas fases iniciais, ele é altamente funcional e recompensado social e financeiramente pelas organizações (rotulado como "colaborador exemplar" ou "altamente empenhado"). Contudo, a ausência de controlo volitivo e a motivação baseada no medo (neuroticismo) ou na validação do ego (narcisismo) diferenciam-no do envolvimento saudável (work engagement), transformando-o numa patologia comportamental com custos severos a médio prazo.
O Perfil Resumido do Trabalhador: Os Três Motores
Quando isolamos o perfil focado estritamente no colaborador (e não na chefia), o diagnóstico resume-se a três pontos centrais que podem ser isolados, ou até acumulativos:
O Motor de Execução (O Perfecionista): É um trabalhador rigidamente organizado, focado em metas e com um sentido de dever hipertrofiado. A sua incapacidade de se desligar das tarefas faz com que o trabalho assuma o controlo central da sua vida.
O Motor Emocional (O Ansioso): Utiliza o trabalho excessivo como um mecanismo de fuga para anestesiar a ansiedade, a insegurança ou o medo do fracasso. Sente uma culpa e inquietação profundas quando não está a produzir.
O Motor do Ego (O Narcisista): Procura obsessivamente o estatuto, o prestígio e a validação externa. Encara a sobrecarga de trabalho e a imagem de "indispensável" como formas de alimentar a sua autoestima e provar superioridade.
Em suma: O perfil do workaholic na figura do trabalhador comum é o de um profissional que trabalha compulsivamente não por prazer ou motivação saudável (engagement), mas sim por uma necessidade interna de controlo, validação / ou alívio da ansiedade, tornando-se altamente vulnerável a ecossistemas onde a própria liderança também é viciada no trabalho.
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