A Mala que Levamos para Férias. PARO E NÃO RELAXO???
Alimentamos durante meses a expetativa de que as tão desejadas férias têm um poder quase terapêutico. Convencemo-nos de que o stress e a exaustão acumulados ao longo do ano vão desaparecer, como que por magia, no preciso instante em que colocarmos os pés na praia ou nos deitarmos na rede à sombra.
Mas a neurobiologia raramente obedece às expetativas do nosso calendário.
Quando passamos o ano inteiro a correr, a resolver problemas e a sustentar níveis elevados de stress — com o cortisol e a adrenalina constantemente em alta —, o nosso corpo habitua-se a viver num estado de alerta permanente. A hipervigilância passa a ser a nossa linha de base. É precisamente aí que a armadilha se arma no início (ou ao longo) das férias: o corpo pára, mas o alarme continua ligado.
Quando surge finalmente o silêncio, ele não traz a paz esperada — traz desassossego e mantém o estado de vigília. Mas por que razão isto acontece?
Sem a urgência do trabalho a ocupar a atenção e sem uma tarefa concreta para direcionar a energia acumulada, a mente encontra no vazio o espaço para despejar tudo aquilo que fomos adiando e acumulando durante meses. É por isso que os ataques de pânico, o aperto no peito e as insónias surgem, ironicamente, no exato momento em que nos permitimos relaxar. Nas férias.
A verdade é simples e por vezes desconfortável: as férias não curam a ansiedade; numa fase inicial, apenas a mudam de lugar. Se a mente vai carregada, a ansiedade viaja na mala connosco, independentemente da beleza do cenário.
Se até aqui só "descansávamos" quando já estávamos no limite, a verdade é que não estávamos a relaxar — estávamos apenas a tentar sobreviver à exaustão.
Enquanto estamos no ritmo do dia a dia, funcionamos como um médico num serviço de urgência: sempre focados em responder à emergência seguinte, sem tempo para sentir. Quando finalmente paramos, o corpo encontra o tempo e o espaço de que precisava para expressar todo o desgaste que esteve reprimido.
Acontece algo muito semelhante ao que se passa quando apanhamos uma virose: o sistema imunitário vai sustentando a ameaça em segundo plano até ao momento em que, ao pararmos, surge aquela febre alta — o pico de combate que o organismo precisa de fazer para se curar. Nas férias, a pausa funciona de forma análoga: a exaustão ganha espaço para se expressar para que o sistema se possa autorregular, mas esse pico de libertação pode ser profundamente doloroso.
Ter paz mental não devia ser uma sorte que nos acontece por uns dias no Verão, nem um privilégio reservado a momentos pontuais de pausa. A capacidade de parar sem medo, de regular o sistema nervoso e de desativar o estado de alerta constante é algo que se aprende, se treina e se reconstrói — com o acompanhamento psicológico e clínico adequado.
Agora que estás mais ciente deste mecanismo, lembra-te: cuidar de ti não é algo para adiar até às próximas férias. Começa na forma como gere as tuas pausas todos os dias.