O que ninguém te conta sobre ser psicoterapeuta.
"O áudio das 21h e o vestido azul que voltou a brilhar."
Eram 21 horas… Estava a entrar no carro para regressar a casa e vi uma entrada de áudio no whatsapp.
Uma das minhas utentes enviou‑me esse áudio, ainda a tremer, a relatar mais um episódio de violência doméstica que está a enfrentar. A dada altura, a sua voz fraturou-se e ouvi algo como:
“... eu não aguento isto… [chora]
Dra., desculpe, desculpe…
a caminho de casa, a conduzir, apetecia‑me largar o volante…
[chora novamente]
estou miseravelmente infeliz e odeio a minha vida…
[pausa longa]
desculpe… eu só precisava de chorar.”
Fiquei ali, imóvel, a ouvi-la no silêncio do carro e no silêncio do dia que já ia longo. O áudio era curto, mas continha a densidade de quem já não encontra dentro de si espaço para mais uma gota de sofrimento.
Respondi-lhe por áudio e, depois, complementei com uma mensagem escrita com algumas orientações práticas. Naturalmente, devolvi-lhe validação emocional, suporte e a lembrança de que há vida depois daquele instante — que aquele choro, embora duro, é também um lugar de passagem, não de permanência.
Como psicoterapeuta, há momentos assim: em que alguém nos entrega, mesmo à distância, o fragmento mais vulnerável do seu dia. E nós recebemos — com cuidado, com ética, com o sentido profundo de responsabilidade que o lugar exige. Sabendo que, do outro lado, uma pessoa está a lutar para não desaparecer dentro da própria dor.
Alguns minutos depois — tempo que passei parada no mesmo sítio — chegou outra mensagem, desta vez escrita:
“Obrigada, Dra. Estava mesmo a precisar chorar. Já me sinto mais calma. Compreendi o que disse.
Agora vou dormir — não janto, não entra nada.
Amanhã já decidi o que fazer.
Até amanhã. Amanhã dou notícias, como pediu.
Um beijinho.”
Pensei: Que bom.
Mas enquanto esperava pela resposta dela, outros pensamentos me visitaram…
Lembrei-me de outra utente, com uma personalidade obsessiva e ansiosa — felizmente agora em franca melhoria — que neste dia me disse algo como:
“Eu passava horas a rezar, 2 ou 3 horas seguidas, para garantir que nada de mal acontecia… Levava os santinhos comigo para tudo correr bem. Ai de mim se não os levasse — significava que eu estava a falhar, que algo podia correr mal por minha culpa.
Lembro-me do dia em que o meu filho defendeu a tese de mestrado. Usei um vestido azul, que nunca mais consegui vestir porque tinha prometido a mim mesma que, se tudo corresse bem, nunca mais o usaria. E eu gostava tanto daquele vestido.
Mas, Dra… estava a pensar vesti-lo!”
Sorri. Agora e na altura.
Que alegria é ver alguém já não tão refém da sua doença, da sua própria mente.
Após tudo isto, liguei finalmente o carro e segui rumo a casa.
Tão bom este caminho.
Tão bom perceber que o dia termina com um balanço positivo — nas intervenções, nos avanços, no trabalho de equipa que faço com as «minhas» pessoas.
Que privilégio imenso é ser psicoterapeuta.
E, contudo, ao chegar a casa, aparece também o cansaço — físico e psicológico. Sabe bem a refeição. Sabe bem o abraço dos meus.
Obrigada, vida, por mais um dia útil e pleno. Mesmo com o peso das emoções dos outros.
Este “peso” não é pesado: é denso, é sentido…
mas dissolve-se em gratificação e, tantas vezes, em poesia dentro da minha cabeça.
Ainda me apanho a filosofar sobre o sentido da vida humana… até que, sem dar por isso, adormeço no sofá.
A custo, a cambalear, sigo para o conforto do meu quarto.
Até amanhã.