De onde vêm as nossas emoções? A neurociência procura responder... e eu resumo para si.

Todos nós já sentimos um aperto no peito antes de uma reunião, de uma apresentação importante ou, até, antes de um primeiro encontro e, provavelmente, entendeste chamar-lhe "ansiedade" ou "paixão". Mas porquê? Possivelmente entendeste ser a emoção presente, mas como sabes que essa capacidade consciente de identificar algo no teu corpo tem esse nome? Como é que as emoções são criadas em nós? São inatas e só tomamos nota delas, são analisadas tendo em conta a nossa experiência de vida, ou consideram o contexto onde ocorrem? Afinal, de onde vêm as nossas emoções?

A neurociência passou os últimos 50 anos a tentar responder a esta questão. Como sou uma curiosa do tema, li e refleti sobre o debate fascinante entre três gigantes da neurociência e da psicologia: Paul Ekman, António Damásio e Lisa Feldman Barrett.

A jornada do pensamento deles é uma verdadeira linha contínua de produção de conhecimento e, mediante te identifiques mais com um ou com outro, o teu entendimento muda completamente a forma como entendes o que sentes. Tentei decifrar este quebra-cabeças, refletindo e criando a minha própria ideia – a que faz sentido e é útil para o meu trabalho psicoterapêutico – e partilho-a contigo.

1. O Ponto de Partida: Paul Ekman e as emoções "de fábrica"

Nos anos 1970, o psicólogo Paul Ekman viajou pelo mundo (e visitou até tribos isoladas) para defender que as emoções básicas — como o medo, a raiva, a alegria, a tristeza, o nojo e a surpresa — são universais.

Para Ekman, nós nascemos com circuitos biológicos pré-programados. Se sentes medo, o teu cérebro ativa um “botão” e o teu rosto expressa-o de uma forma que qualquer ser humano no planeta consegue reconhecer. Nesta visão clássica, a emoção é um disparo biológico fixo. Tu simplesmente reages.

2. A Ponte de António Damásio: O Teatro e a Mente

Nos anos 1990, o neurocientista português António Damásio trouxe uma lufada de ar fresco à ciência ao abrir caminho para uma nova compreensão da mente, insisting numa separação cirúrgica que ainda confunde muita gente: emoção não é o mesmo que sentimento.

Para compreendermos a proposta de Damásio, precisamos de olhar para as coisas por partes, desfazendo o nó clássico entre o que é o corpo e o que é a mente. A engrenagem divide-se em três grandes momentos evolutivos:

O Início de Tudo: A Consciência e os Sentimentos Homeostáticos

Nos seus livros mais recentes (como A Estranha Ordem das Coisas) – o último que li –, Damásio trouxe um concept-chave: os sentimentos homeostáticos.

Para Damásio, a consciência não nasceu do pensamento abstrato, da filosofia ou da linguagem, mas sim do sentimento biológico puro. Antes de reagirmos ao mundo, o nosso corpo precisa de se manter vivo e equilibrado (a chamada homeostase). É aí que entram os sentimentos homeostáticos, como a fome, a sede, o cansaço ou a dor.

Eles são a mente a ler diretamente a química e o estado interno dos nossos órgãos, sem precisar de nenhum evento externo ou de um "teatro emocional" prévio. Quando uma criatura primitiva sentiu a dor ou o desconforto da fome, esse sentimento foi o primeiro passo evolutivo que obrigou a mente a despertar e a dizer: "Ei, eu existo e este corpo sou eu". É a biologia pura a relatar o seu estado para garantir que não morremos.

Duas Formas de Ler o Corpo: Sentimentos Homeostáticos vs. Sentimentos Emocionais

Se por um lado existem então os sentimentos homeostáticos, também existem os sentimentos emocionais. E qual é a diferença essencial entre eles? É a origem do relatório que chega à mente, ou seja, o que causou a alteração no teu corpo:

  • Os Sentimentos Homeostáticos são a "leitura" INTERIOR da rotina do corpo: Estão focados estritamente na manutenção da máquina viva. O corpo altera-se sozinho devido ao desgaste natural das células. Se o açúcar no sangue desce, sentes fome; se as células precisam de repouso, sentes cansaço. Não há pensamentos, memórias ou julgamentos envolvidos. É a química da carne a reclamar manutenção.

  • Os Sentimentos Emocionais são a "leitura" de uma REAÇÃO do corpo: São as sensações que nascem porque o teu cérebro processou um estímulo e decidiu que o corpo precisava de reagir a ele, gerando uma alteração física. E aqui está o grande truque: este estímulo pode vir do mundo exterior (como o susto com um cão que late no portão) ou pode nascer inteiramente de um estímulo interno, como uma imagem mental, um pensamento ou uma memória (imagina estares em silêncio no consultório e lembrares-te de um trauma passado ou antecipares um cenário catastrófico). Para o cérebro, o impacto é o mesmo: ele dispara as ordens, o corpo altera-se e a mente lê essa alteração, gerando o sentimento emocional (de medo, mágoa ou ansiedade).

Desfazendo o nó: A Diferença entre Emoções e Sentimentos Emocionais

Mas então, se o sentimento emocional é a leitura que a mente faz desta reação corporal, onde é que entra a "emoção" propriamente dita? É aqui que a linha de produção de Damásio se divide em duas etapas claras:

  • A Emoção é o teatro no corpo (Física e Ação): É a reação automática, química e física desencadeada pelo cérebro (seja por causa de um cão real ou de uma memória dolorosa). O teu corpo executa a emoção: o coração acelera, a pele esfria, as pupilas dilatam. Isto acontece "do pescoço para baixo", é um processo biológico público e visível.

  • O Sentimento Emocional é o olhar da mente (Mental e Perceção): É o segundo passo. É quando o cérebro "lê" esse teatro a acontecer no corpo e o traduz na experiência consciente e privada. A tua mente repara no coração acelerado e nas pernas a tremer e diz: "Estou a sentir medo!".

Em suma, no universo de Damásio: A emoção é o corpo a transformar-se (o teatro). O sentimento emocional é a mente a ler essa transformação gerada por um estímulo do mundo ou por um pensamento (de fora ou de uma memória para dentro). E o sentimento homeostático é a mente a ler a rotina química diária do corpo (de dentro para dentro).

3. Lisa Feldman Barrett e a Revolução Construcionista

É aqui que a evolução de pensamento é mais notória e radical. A neurocientista Lisa Feldman Barrett, após anos de pesquisa científica, "transforma" os sentimentos homeostáticos de Damásio na matéria-prima de toda a nossa vida mental. Ela chama-lhe Afeto Bruto. Segundo entendi, para ela, o afeto bruto funciona como um mecanismo arcaico, biológico, inato e simples que a nossa consciência deteta e só depois interpreta — ocorrendo esta interpretação de um modo radicalmente diferente em relação aos autores anteriores.

Para Barrett, o teu corpo não tem circuitos prontos para o "medo" ou para a "raiva". O teu corpo opera apenas como um termómetro em eixos contínuos (os eixos do afeto bruto), sobremaneira dois:

  • Valência: A sensação atual é agradável ou desagradável?

  • Ativação: Estás com muita ou pouca energia? (Ou seja, um estado calmo/sem perigo versus um estado de agitação/alerta).

O teu corpo passa o dia a enviar apenas esse relatório de "orçamento corporal" (afeto bruto). Ele avisa se estás acelerado e mal ou calmo e bem. Não sabe dar nomes sociais às coisas. Portanto, o corpo deteta o afeto bruto e avalia-o mediante a valência e a ativação, sem que existam “padrões” biológicos internos para emoções concretas (um padrão no cérebro para o medo, outro para a alegria, etc.). Isto porque, nas pesquisas científicas que fez, Barrett percebeu que há uma enorme variabilidade na ativação, por exemplo neurológica, para a mesma emoção dada por pessoas diferentes.

Então, o que é a Emoção para Barrett?

Para ela, a emoção é simplesmente a interpretação cultural que o teu cérebro dá ao afeto bruto. O corpo sente um afeto e avalia-o de forma primária e, por essa razão, ela distingue-se de Damásio: na sua teoria, a distinção clássica entre emoção e sentimento praticamente desaparece.

Ela entende que o teu cérebro é uma máquina de previsão. Quando sente o corpo acelerar (afeto bruto), olha para o contexto e usa as palavras e os conceitos que aprendeste na tua cultura para adivinhar e criar a emoção em tempo real, sempre com base na tua experiência de vida (a tua memória e o teu armazenamento de experiências).

Para explicar isto, Barrett usa uma metáfora maravilhosa: a da culinária. Imagina que a valência e a ativação (o teu afeto bruto) são os ingredientes básicos na tua cozinha — como ovos, farinha e leite. Sozinhos, eles são apenas matéria-prima. O que determina se esses mesmos ingredientes vão transformar-se num bolo de aniversário, nuns crepes ou numa omelete é a receita que escolhes usar. Na nossa mente, a "receita" é o conceito cultural e as memórias que o cérebro escolhe para cozinhar o afeto bruto.

De acordo com isto, se o coração acelera porque estás há 7 horas sem comer, o cérebro usa o contexto e cria o conceito de fome; se o coração acelera ao ver a pessoa amada, ele cria paixão. E se o coração acelera antes de um teste, o cérebro aplica o conceito de ansiedade numa pessoa, mas esse mesmo estado físico pode ser chamado de outra emoção por outra pessoa. O sinal físico do corpo é exatamente o mesmo, mas quem cria a história, a textura e o nome da emoção é a tua mente cultural.

O Poder de Agir: O que é que a teoria de Barrett muda na Psicoterapia?

É aqui que a teoria da Barrett se torna uma ferramenta clínica revolucionária para o meu trabalho psicoterapêutico. Ao contrário das visões tradicionais que pintam as emoções como monstros biológicos que nos atacam de surpresa, Barrett propõe outra metáfora poderosa: nós somos os arquitetos das nossas emoções.

O cérebro desenha as emoções com base nas experiências passadas. Se um utente passou a vida a associar o coração acelerado (afeto bruto) à rejeição ou ao perigo (contexto), o cérebro dele vai arquitetar repetidamente a "ansiedade" ou o "medo" sempre que o corpo der esse sinal. O utente sente-se uma vítima indefesa do seu próprio corpo.

Mas a Barrett deixa claro: embora tu não tenhas controlo sobre o afeto bruto que sentes no momento, tu tens uma enorme responsabilidade e liberdade sobre a forma como o teu cérebro o interpreta.

Isto devolve o poder de agir (a agência) diretamente aos nossos utentes. No setting terapêutico, isto significa que podemos ajudar o utente a:

  1. Desconstruir a emoção: Separar o sinal físico bruto (ovos e farinha) da história catastrófica que o cérebro cozinhou.

  2. Expandir a granularidade emocional: Aprender palavras e conceitos novos. Se o utente só conhece a palavra "raiva", tudo vira raiva. Se ele aprender a identificar "frustração", "injustiça" ou "cansaço", o cérebro ganha novas receitas para interpretar o corpo de forma mais funcional.

  3. Reciclar o passado para mudar as previsões do futuro: Ao ressignificar memórias e mudar o comportamento no presente, estamos a dar dados novos ao cérebro. Da próxima vez que o coração acelerar, o cérebro já terá arquivos novos para prever algo saudável em vez de um ataque de pânico.

Não somos escravos de circuitos herdados nem de memórias que nos assaltam no silêncio. Somos construtores ativos da nossa experiência presente.

O Resumo da Ópera

Se pudéssemos sentar os três autores à conversa no café do blogue, o resumo seria este:

  • Paul Ekman diria: "Tu ativas uma emoção biológica universal que já vem pronta de fábrica."

  • António Damásio diria: "O mundo (ou uma memória) faz o teu corpo reagir (emoção) e a tua mente lê e sente essa reação (sentimento)."

  • Lisa Feldman Barrett diria: "O teu corpo apenas oscila em energia e prazer (afeto bruto) e a tua mente constrói o significado disso usando a tua cultura e a tua experiência de vida (emoção)."

Entender que as emoções são puramente e rigidamente automáticas ou em parte inatas dá-nos sempre a liberdade de, primeiro, tomar consciência delas e moldar o pensamento e o comportamento em relação a elas. Por outro lado, se adotarmos a visão de Barrett de que somos nós que as construímos através da nossa mente cultural, o nível de responsabilidade e liberdade clínica sobe drasticamente. Temos nas mãos o poder de fornecer novas receitas ao cérebro dos nossos utentes, mudando a arquitetura do seu sofrimento e devolvendo-lhes a soberania sobre o que sentem.

E tu? Achavas que as tuas emoções eram disparos automáticos ou percebeste agora que o teu cérebro anda a inventar significados e a cozinhar receitas por aí? Deixa a tua opinião nos comentários!

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